Durante duas décadas a rinossinusite crônica foi dividida em duas caixas: com pólipo e sem pólipo. Era simples, era visual e era insuficiente — dois pacientes com o mesmo pólipo podiam ter inflamações completamente diferentes e responder a coisas diferentes. O EPOS 2020 trocou as duas caixas por um mapa, e é esse mapa que a prova cobra agora.
Inflamação da mucosa nasal e dos seios paranasais com 12 semanas ou mais de sintomas, confirmada por endoscopia ou tomografia. Classifica-se primeiro em primária ou secundária, depois em localizada ou difusa, e só então pelo endótipo — tipo 2 ou não tipo 2. O pólipo deixou de ser o eixo da classificação e virou apenas um dos achados.
O critério do EPOS 2020 tem três partes, e a terceira é a que mais se esquece na hora da prova.
Primeiro, dois ou mais sintomas, por pelo menos 12 semanas ininterruptas, sendo que um deles obrigatoriamente precisa ser obstrução nasal ou rinorreia (anterior ou posterior). Os outros dois candidatos são dor ou pressão facial e redução ou perda do olfato.
Ou seja: um paciente com 12 semanas de dor facial e anosmia, sem obstrução e sem rinorreia, não preenche o critério de sintomas. Essa é a pegadinha clássica.
Segundo, a duração: 12 semanas. Abaixo disso é aguda ou subaguda, e a conduta é outra.
Terceiro — e aqui muita gente para cedo — é preciso confirmação objetiva: sinais à endoscopia (pólipos, secreção mucopurulenta saindo do meato médio, ou edema e obstrução mucosa no meato médio) ou alterações tomográficas na complexidade ostiomeatal e nos seios.
Sintoma é depoimento; endoscopia e tomografia são prova material. Nenhum tribunal condena só com depoimento, e nenhum diagnóstico de rinossinusite crônica se fecha só com a queixa do paciente — porque obstrução, rinorreia e dor facial são compartilhadas por rinite alérgica, rinite não alérgica, desvio septal, cefaleias primárias e doença do refluxo. Sem a testemunha objetiva, o que você tem é uma síndrome nasal, não uma rinossinusite crônica.
Vale fixar os dois termos, porque a prova usa os dois e eles não são sinônimos.
Fenótipo é o que se observa: tem pólipo ou não tem, é unilateral ou bilateral, tem asma junto ou não. É descritivo. Você vê pela endoscopia e pela tomografia.
Endótipo é o mecanismo biológico que produz aquele fenótipo: quais citocinas dominam, quais células infiltram o tecido, qual via inflamatória está ligada. É invisível ao olho e é o que determina a resposta ao tratamento.
Fenótipo é a febre; endótipo é a infecção que a causou. Dois pacientes com 39 °C parecem iguais no corredor do pronto-socorro, mas um tem pneumonia bacteriana e o outro tem dengue — e tratar os dois igual é errar um deles. Foi exatamente isso que a medicina fez com a polipose por vinte anos: operou todo mundo do mesmo jeito, porque só enxergava o pólipo.
A consequência prática é direta. Todo biológico disponível hoje mira um endótipo, não um fenótipo. É por isso que a classificação mudou: sem endotipar, não há como escolher o alvo.
A árvore tem três níveis de decisão, sempre nesta ordem: primária ou secundária, localizada ou difusa, tipo 2 ou não tipo 2.
Chamar de “rinossinusite crônica refratária” aquilo que na verdade é rinossinusite secundária nunca investigada. O paciente que opera três vezes e não melhora pode não ter uma doença agressiva — pode ter uma bola fúngica, um dente com lesão periapical, uma granulomatose ou uma imunodeficiência comum variável que ninguém procurou. Antes de escalonar a inflamação, exclua a causa.
Endotipar, na prática clínica de hoje, é responder a uma pergunta binária: essa inflamação é tipo 2 ou não é? A divisão é grosseira e a literatura já descreve mistos, mas é a divisão que muda a conduta, porque é para o tipo 2 que existem drogas.
O epitélio lesado libera as alarminas — TSLP, IL-25 e IL-33 —, que ativam linfócitos Th2 e células linfoides inatas do grupo 2 (ILC2). Elas produzem o trio efetor:
| Citocina | O que ela faz | Quem bloqueia |
|---|---|---|
| IL-5 | Recruta e mantém eosinófilos no tecido e no sangue | Mepolizumabe, reslizumabe, depemokimabe; benralizumabe no receptor |
| IL-4 | Diferenciação Th2 e troca de classe para IgE | Dupilumabe (via IL-4Rα) |
| IL-13 | Hiperprodução de muco, remodelamento, elevação do FeNO | Dupilumabe (via IL-4Rα) |
| IgE | Sensibiliza mastócitos e basófilos | Omalizumabe |
| TSLP | Alarmina a montante de toda a cascata | Tezepelumabe |
Essa tabela é o mapa dos biológicos. Cada anticorpo monoclonal corta uma seta dessa cascata, e quanto mais a montante o corte, mais amplo o efeito — razão pela qual o tezepelumabe, que bloqueia a alarmina, funciona também em quem tem eosinófilo baixo.
Predomínio neutrofílico, com IL-17, IL-8 e interferon-gama, ou padrão paucicelular com pouca inflamação evidente. Costuma cursar sem pólipo, com menos anosmia, e responde mal ao corticoide — que é justamente uma droga de inflamação tipo 2. É o grupo órfão de tratamento-alvo.
A proporção entre os dois endótipos varia com a população. Em coortes ocidentais, a grande maioria das poliposes é tipo 2; no Leste Asiático, a fatia de polipose neutrofílica, não eosinofílica, é substancialmente maior. Ou seja: “polipose é doença eosinofílica” é uma frase verdadeira no hemisfério em que a maioria dos estudos foi feita, e não uma lei universal.
Polipose bilateral difusa, anosmia proeminente, forte associação com asma. A definição histológica que se consolidou é ≥ 10 eosinófilos por campo de grande aumento, média de pelo menos três campos. Dois cuidados invalidam a biópsia se ignorados: não colher com o paciente há 30 dias ou mais em corticoide, e usar pinça fenestrada para não esmagar a amostra.
Fenótipo mais recente e cada vez mais cobrado. É tipo 2, fortemente ligado à alergia a inalantes, e tem uma assinatura anatômica: alteração polipoide central — concha média, concha superior e septo posterossuperior — com a concha inferior tipicamente poupada. Na tomografia, o achado é espessamento de partes moles no centro do nariz com relativa limpeza da periferia dos seios; quando há velamento sinusal, ele é obstrutivo, secundário ao volume central.
Reconhecer o CCAD muda a conduta porque o paciente costuma responder muito bem a corticoide tópico bem posicionado e ao controle da alergia — antes de qualquer discussão de cirurgia extensa.
Primária, mas localizada e unilateral na árvore do EPOS. Adulto jovem, atópico, pólipos, mucina alérgica espessa com hifas e cristais de Charcot-Leyden, IgE elevada, e uma tomografia característica com áreas de hiperatenuação e expansão ou erosão de paredes ósseas por pressão. É doença de manejo cirúrgico com controle inflamatório prolongado no pós-operatório.
A tríade de asma, polipose e hipersensibilidade a inibidores da COX-1. É o fenótipo de pior prognóstico da polipose, com 37% de cirurgia de revisão em cinco anos. Tem um texto inteiro aqui na ORL Lab — vale ler em seguida a este.
Em geral sem pólipo, obstrução e rinorreia purulenta mais proeminentes que a anosmia, e resposta pobre ao corticoide. É onde mais se discute o papel da disfunção mucociliar, do biofilme e do tratamento prolongado com macrolídeo em dose baixa.
A ordem abaixo economiza consulta e é a que os guidelines sustentam.
Unilateralidade é sinal de alarme até prova em contrário. Quadro estritamente unilateral, epistaxe, dor desproporcional, cacosmia intensa, alteração visual ou proptose, anestesia de território do trigêmeo, qualquer neuropatia craniana, ou crostas e destruição septal. Nesses casos a pergunta deixa de ser “qual endótipo” e passa a ser tumor, doença fúngica invasiva, vasculite ou causa odontogênica — e a investigação muda, com imagem dedicada, biópsia e sorologias.
O EPOS 2020 abandonou a ideia de “gravidade” fixa e adotou controle, avaliado no último mês. É o mesmo raciocínio da asma, e é o que dá o gatilho para escalonar tratamento.
Avaliam-se cinco domínios — obstrução nasal, rinorreia ou gotejamento posterior, dor ou pressão facial, alteração do olfato, e distúrbio do sono ou fadiga —, mais a presença de mucosa doente à endoscopia e a necessidade de medicação sistêmica de resgate.
| Situação | Como se define | O que fazer |
|---|---|---|
| Controlada | Nenhum domínio alterado | Manter o tratamento de base |
| Parcialmente controlada | Um ou dois domínios alterados | Revisar adesão e técnica antes de escalonar |
| Não controlada | Três ou mais domínios alterados | Escalonar — e reavaliar o diagnóstico |
Boa parte do “não respondeu ao tópico” é, na verdade, tópico mal usado. Confirme se o paciente está fazendo irrigação salina antes do corticoide, se está aplicando com a técnica correta — jato direcionado para lateral, para longe do septo, sem fungar forte — e há quanto tempo usa de fato. Corticoide tópico nasal precisa de semanas para efeito pleno, e o paciente que usa “quando incomoda” está tomando placebo caro.
A lógica é sempre a mesma: ninguém sobe um degrau sem ter cumprido o anterior de verdade. E, ao contrário do que a sequência sugere, a cirurgia não encerra o tratamento clínico — ela existe em boa parte para viabilizá-lo.
Irrigação salina é barata, tem boa evidência e quase ninguém explica direito. Alto volume e baixa pressão superam o spray, e a ordem importa: irriga primeiro, aplica o corticoide depois, no nariz já limpo.
Corticoide tópico nasal é o pilar. Nas doenças tipo 2 é o que muda a história natural. Em cavidade já operada, a irrigação com corticoide em alto volume alcança regiões que o spray não atinge — uso consagrado na prática, ainda que fora de bula.
Corticoide sistêmico funciona bem e por pouco tempo. É ferramenta de resgate e de teste diagnóstico, não de manutenção: o paciente que precisa de dois ou mais cursos por ano já está, por definição, mal controlado — e isso é um dos critérios para biológico.
Antibiótico tem papel restrito. Serve para agudização bacteriana documentada. O uso prolongado de macrolídeo em dose baixa, pelo efeito imunomodulador, tem seu melhor racional no não tipo 2, com IgE normal e sem eosinofilia.
Cirurgia tem dois objetivos, e vale enunciá-los separados porque a prova cobra: remover a obstrução e abrir os seios para que o tratamento tópico alcance a mucosa.
O EPOS 2020 estabeleceu que o candidato é o paciente não controlado apesar de tratamento clínico e cirúrgico apropriados, que preencha 3 dos 5 critérios abaixo. A atualização EPOS/EUFOREA de 2023 manteve a exigência de cirurgia prévia e ajustou um número.
| Critério | Como se define |
|---|---|
| Inflamação tipo 2 | Eosinófilos teciduais ≥ 10 por campo, eosinófilos séricos ≥ 150/µL ou IgE total ≥ 100 UI/mL |
| Necessidade de corticoide sistêmico | Dois ou mais cursos no último ano, ou uso contínuo |
| Impacto na qualidade de vida | SNOT-22 ≥ 40 |
| Perda do olfato | Anosmia em teste psicofísico |
| Asma como comorbidade | Asma que necessita de corticoide inalatório contínuo |
Repare no ponto que mais cai: inflamação tipo 2 não é pré-requisito obrigatório. O painel discutiu torná-la mandatória e decidiu não fazê-lo, porque ainda não há definição precisa de tipo 2 na RSC nem dados suficientes sobre inflamação mista. Ela é um dos cinco, não a porta de entrada.
| Biológico | Alvo | Evidência na polipose |
|---|---|---|
| Dupilumabe | IL-4Rα — bloqueia IL-4 e IL-13 | SINUS-24 e SINUS-52. O mais estudado no cenário nasal |
| Omalizumabe | IgE | POLYP 1 e POLYP 2 |
| Mepolizumabe | IL-5 | SYNAPSE |
| Tezepelumabe | TSLP — a alarmina, mais a montante | WAYPOINT (2025). Aprovado nos EUA para polipose em 2025; disponibilidade varia por país |
| Depemokimabe | IL-5, meia-vida ultralonga | ANCHOR-1 e ANCHOR-2 (2025). Duas aplicações por ano |
Três pontos práticos que valem mais que a memorização dos ensaios. O efeito costuma aparecer por volta da quarta semana, mas varia de dias a meses. A melhora do olfato ocorre em torno de 60% dos casos e não se correlaciona com a redução do tamanho do pólipo — são desfechos independentes. E convém dosar eosinófilos no primeiro e no terceiro mês de tratamento, pela hipereosinofilia transitória associada ao bloqueio de IL-4Rα.
EPOS/EUFOREA 2023. O corte de eosinófilos séricos caiu de ≥ 250 para ≥ 150/µL, alinhando com a literatura de pneumologia. A avaliação de resposta saiu de 16 semanas para 6 meses, com reavaliação em 1 ano e depois anual. Os critérios de resposta foram simplificados para 0 critérios = sem resposta; 1 a 3 = resposta pobre a moderada; 4 a 5 = boa a excelente — mudança feita porque, no formato anterior, quem não tinha asma nunca conseguia atingir “resposta excelente”. E a menor necessidade de cirurgia entrou como critério de resposta ao lado da menor necessidade de corticoide sistêmico, já que ambos são tratamentos de resgate.
2025 trouxe duas novidades de peso. No WAYPOINT, o tezepelumabe reduziu a indicação de cirurgia para 0,5% contra 22,1% no placebo em 52 semanas, e o uso de corticoide sistêmico para 5,2% contra 18,3% — com efeito já a partir da quarta semana. Nos ANCHOR-1 e ANCHOR-2, o depemokimabe mostrou eficácia com apenas duas aplicações por ano, o que muda a conversa sobre adesão em tratamento crônico.
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