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O que mudou

Displasia laríngea: o que a OMS 2017 mudou

Laringologia · Cap. 198 do Tratado da ABORL-CCF · 12 de agosto de 2026 · 6 min de leitura

Durante anos a displasia laríngea foi classificada em leve, moderada e severa, com o carcinoma in situ à parte. Quem estudou por material antigo aprendeu assim. A classificação vigente tem duas categorias, e a diferença não é cosmética: ela muda a conduta.

Em uma linha

A OMS 2017 adotou a classificação de Ljubljana modificada e reduziu a displasia laríngea a baixo grau (até um terço da espessura do epitélio) e alto grau (dois terços ou a espessura total, incluindo o carcinoma in situ).

Por que mudaram

O problema nunca foi teórico, foi prático: os patologistas não concordavam entre si. A classificação de Ljubljana original tinha quatro graduações — hiperplasia epitelial, hiperplasia celular basal/parabasal, hiperplasia atípica e carcinoma in situ — e a concordância entre observadores era baixa. Duas lâminas iguais recebiam laudos diferentes.

A versão modificada reduziu o número de graduações e atualizou os critérios. A concordância melhorou, e foi essa versão que a OMS adotou em 2017. Menos categorias, mais reprodutibilidade — que é o que importa quando o laudo decide se você resseca ou observa.

As duas categorias, na prática

CategoriaAchado histológicoEspessura acometida
LIE de baixo grauEpitélio escamoso hiperplásico com aumento de células parabasaisAté um terço
LIE de alto grauCélulas basaloides atípicas, com atipias celulares e nucleares leves a moderadasDois terços à espessura total
Carcinoma in situDesordem arquitetural completa, atipias severas, atividade mitótica aumentadaTotal, sem romper a membrana basal

O CIS está dentro do alto grau na OMS 2017, mas a classificação permite que serviços que preferirem o reportem separadamente. Vale saber disso: a prova pode cobrar a regra ou a exceção.

Os números que caem

Um estudo retrospectivo com 1.444 pacientes classificados pela Ljubljana modificada mostrou o que sustenta toda essa divisão:

São quase oito vezes mais. É por isso que a categoria importa: ela não descreve a lâmina, ela estima o risco.

Vale ter na cabeça também o risco médio de progressão das displasias, em torno de 20%, e o intervalo médio até o carcinoma, de cerca de 52 meses — menor em quem continua fumando.

Três coisas que derrubam candidato neste tema

1. Achar que leucoplasia é diagnóstico

Não é. Leucoplasia é qualquer lesão branca não removível da mucosa; eritroplasia é a vermelha; eritroleucoplasia é a mista. Nenhum aspecto macroscópico permite inferir o correspondente microscópico. Só a histologia responde. A prova adora descrever uma leucoplasia extensa e perguntar o diagnóstico — e a resposta é sempre biópsia.

2. Confundir o papel do HPV na laringe com o da orofaringe

Na orofaringe a relação causal está estabelecida, sobretudo em tonsila palatina e base de língua. Na laringe, não. O HPV parece responder por apenas 1 a 6% dos casos de câncer. E há uma sutileza que separa quem estudou: PCR para DNA do HPV não confirma relação causal, porque o DNA viral aparece com frequência até em lesão benigna. Confirma-se com hibridização in situ para o mRNA das proteínas E6 e E7, ou RT-PCR desse mRNA — o que demonstra vírus ativo e integrado.

3. Esquecer que o divisor entre CIS e invasivo é a membrana basal

Atipia nuclear já existe na displasia. Queratinização não define invasão. O que define é o rompimento da membrana basal. Enquanto ela está íntegra, é carcinoma in situ.

Diagnóstico: o número que justifica a endoscopia

Anamnese e exame físico isolados acertam o diagnóstico em 5% dos casos. A avaliação endoscópica inicial leva a acurácia para 68,3%. É um dos poucos dados do capítulo com cara de alternativa numérica — vale decorar o par.

Na bioendoscopia (NBI, SPIES), a classificação de Arens de 2016 é o que se cobra: vasos perpendiculares à superfície indicam doença potencialmente maligna, de displasia leve para cima. Vasos longitudinais, paralelos à superfície, ou ausência de vasos, sugerem lesão benigna ou placa queratósica. Ainda assim, nada disso substitui a histologia, que segue como padrão-ouro.

Tratamento: o que é consenso e o que não é

Não há consenso sobre o tratamento das LIEs. Há uma tensão real entre tratar de menos e deixar progredir, ou tratar demais e produzir cicatriz com deterioração da voz. O que se acorda é que a abordagem oncológica tem preferência sobre a qualidade vocal.

Quando a radioterapia entra

A Sociedade Europeia de Laringologia inclui radioterapia nas LIEs de alto grau em cinco situações: múltiplas recorrências, paciente que não cessou o tabagismo, alto risco anestésico, preferência do paciente e múltiplas lesões. Fora disso, a excisão vem primeiro.

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Sobre este texto. Resumo produzido pela ORL Lab a partir do capítulo 198 — Lesões Pré-Malignas da Laringe — do Tratado de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço da ABORL-CCF. As 12 questões correspondentes já estão no banco da plataforma, ligadas a esse capítulo. Este material é de apoio ao estudo e não substitui a leitura da fonte nem orienta conduta clínica.