Durante anos a displasia laríngea foi classificada em leve, moderada e severa, com o carcinoma in situ à parte. Quem estudou por material antigo aprendeu assim. A classificação vigente tem duas categorias, e a diferença não é cosmética: ela muda a conduta.
A OMS 2017 adotou a classificação de Ljubljana modificada e reduziu a displasia laríngea a baixo grau (até um terço da espessura do epitélio) e alto grau (dois terços ou a espessura total, incluindo o carcinoma in situ).
O problema nunca foi teórico, foi prático: os patologistas não concordavam entre si. A classificação de Ljubljana original tinha quatro graduações — hiperplasia epitelial, hiperplasia celular basal/parabasal, hiperplasia atípica e carcinoma in situ — e a concordância entre observadores era baixa. Duas lâminas iguais recebiam laudos diferentes.
A versão modificada reduziu o número de graduações e atualizou os critérios. A concordância melhorou, e foi essa versão que a OMS adotou em 2017. Menos categorias, mais reprodutibilidade — que é o que importa quando o laudo decide se você resseca ou observa.
| Categoria | Achado histológico | Espessura acometida |
|---|---|---|
| LIE de baixo grau | Epitélio escamoso hiperplásico com aumento de células parabasais | Até um terço |
| LIE de alto grau | Células basaloides atípicas, com atipias celulares e nucleares leves a moderadas | Dois terços à espessura total |
| Carcinoma in situ | Desordem arquitetural completa, atipias severas, atividade mitótica aumentada | Total, sem romper a membrana basal |
O CIS está dentro do alto grau na OMS 2017, mas a classificação permite que serviços que preferirem o reportem separadamente. Vale saber disso: a prova pode cobrar a regra ou a exceção.
Um estudo retrospectivo com 1.444 pacientes classificados pela Ljubljana modificada mostrou o que sustenta toda essa divisão:
São quase oito vezes mais. É por isso que a categoria importa: ela não descreve a lâmina, ela estima o risco.
Vale ter na cabeça também o risco médio de progressão das displasias, em torno de 20%, e o intervalo médio até o carcinoma, de cerca de 52 meses — menor em quem continua fumando.
Não é. Leucoplasia é qualquer lesão branca não removível da mucosa; eritroplasia é a vermelha; eritroleucoplasia é a mista. Nenhum aspecto macroscópico permite inferir o correspondente microscópico. Só a histologia responde. A prova adora descrever uma leucoplasia extensa e perguntar o diagnóstico — e a resposta é sempre biópsia.
Na orofaringe a relação causal está estabelecida, sobretudo em tonsila palatina e base de língua. Na laringe, não. O HPV parece responder por apenas 1 a 6% dos casos de câncer. E há uma sutileza que separa quem estudou: PCR para DNA do HPV não confirma relação causal, porque o DNA viral aparece com frequência até em lesão benigna. Confirma-se com hibridização in situ para o mRNA das proteínas E6 e E7, ou RT-PCR desse mRNA — o que demonstra vírus ativo e integrado.
Atipia nuclear já existe na displasia. Queratinização não define invasão. O que define é o rompimento da membrana basal. Enquanto ela está íntegra, é carcinoma in situ.
Anamnese e exame físico isolados acertam o diagnóstico em 5% dos casos. A avaliação endoscópica inicial leva a acurácia para 68,3%. É um dos poucos dados do capítulo com cara de alternativa numérica — vale decorar o par.
Na bioendoscopia (NBI, SPIES), a classificação de Arens de 2016 é o que se cobra: vasos perpendiculares à superfície indicam doença potencialmente maligna, de displasia leve para cima. Vasos longitudinais, paralelos à superfície, ou ausência de vasos, sugerem lesão benigna ou placa queratósica. Ainda assim, nada disso substitui a histologia, que segue como padrão-ouro.
Não há consenso sobre o tratamento das LIEs. Há uma tensão real entre tratar de menos e deixar progredir, ou tratar demais e produzir cicatriz com deterioração da voz. O que se acorda é que a abordagem oncológica tem preferência sobre a qualidade vocal.
A Sociedade Europeia de Laringologia inclui radioterapia nas LIEs de alto grau em cinco situações: múltiplas recorrências, paciente que não cessou o tabagismo, alto risco anestésico, preferência do paciente e múltiplas lesões. Fora disso, a excisão vem primeiro.
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